sexta-feira, 27 de maio de 2011
Cartas em "Já (não) te sinto em mim"
A 20 de Junho de 2009 escrevi:
"Caro João:
Mais um dia em que acordas com esperança de que tudo mude certo?
Mais um dia em que olhando para a janelinha da tua cela o azul do céu te dá coragem para dares mais meia dúzia de passos nessa prisão negra onde te escondes... Mais uns metros em direcção à porta onde a liberdade te espera.
Mas a cada passo que dás mais ouves os Mars Volta a berrarem-te aos ouvidos, mais velhas feridas que se abrem (e as tuas veias que ardem como nunca), e Deus como é nojento o rasto que deixas atrás de ti rapaz... o teu sangue não é mais vermelho, antes um verde viscoso e nojento que exala de cada poro como se de suor se tratasse... Sentes a temperatura do corredor subir, sentes cada músculo arder e a linfa a evaporar-se de ti para fora e infiltrar-se nestes muros que te rodeiam e respiram contigo... Mas continuas a acreditar que no momento em que abrires aquela porta e vires o céu azul do outro lado e o mar lá ao fundo vais actuar tal qual Fénix, e renascer, deixar para trás estas paredes de granito negro, ser finalmente o sujeito bom e colorido que guardas com tanta força lá no fundo...
As paredes gritam-te a cada passo todos os teus ontens, todas as vezes que tentaste chegar a essa porta sem nunca a abrir, e o quanto isso te tornou na desilusão que te foste até ontem.
Hoje Ipirangas-te João, hoje abres essa porta pesada de marfim negro... semicerras os olhos devido à diferença da luminosidade entre essa fortaleza gigante que criaste à tua volta e o mundo lá fora... Hoje finalmente dás um passo lá fora, e mesmo de olhos fechados sentes a chuva limpar-te cada cicatriz... Sentes o visco retrair-se, e ouves as ondas lá ao fundo...
Jurmala... e o mar calmo e infinito à tua frente, reunindo o pouco ar que os teus pulmões ainda aguentam mergulhas na imensidão pacífica destas águas transparentes. Batizas-te a ti próprio no mais divino dos actos que tu como teu próprio Deus te permites. E hoje finalmente a Fénix não te foge... e hoje finalmente acredito no teu potencial...
É por isso velho João, que depois de me sentir renascido não te posso sentir mais em mim... Deixo essa tua velha carcaça construída na depressão e no cinzento para trás, caída na areia molhada, entregue aos elementos que tanto evitámos. Mato cada porção de pena própria que ainda te restava, e tomo rédeas da minha própria vida. Faço de conta que nunca nada se passou antes.
Sou finalmente ser humano. Sou-me novo. Sou-me eu e assumo a minha capacidade de errar como algo de bom, assumo também a capacidade de errarem comigo como um compromisso necessário... E perdoa-me porque sei que toda esta escuridão foi apenas a tua maneira de nos protegeres, agradeço-te até por teres construído este lugar dentro de nós que apesar de opressivo pelo menos nos era familiar, onde pelo menos sabíamos com que contar... Mas chega de ti e do teu mundo.
Se amanhã a queda for tão grande como todas foram até agora, talvez volte a ti, mas por ora, não te sinto mais em mim João. Tentarei com toda a sinceridade matar cada pedaço de ti que ainda me reste pondo assim um fim piedoso à nossa existência conjunta.
Até nunca velho eu... pelo menos assim o espero..."
A 27 de Maio de 2011 escrevo:
"
Caro João:
Dia 1
Esbracejo mais uma vez até sentir o pé na areia. O naufrágio deu-se por vontade alheia. A embarcação era frágil e já antes de embarcar sabia que a probabilidade de atracar são e salvo era mínima.
As ondas batem-me nas costas e embora tenha pé o cenário à minha frente é desolador.
Dei novamente à torre negra.
Olho para o meu corpo e lá a suspeita que o ardor criava confirma-se, a ferida no peito não cicratizou ainda, nu olho em volta para ver o que a pode parar, e tremo entre o medo e a mágoa de ver os restos da minha pele antiga ainda no sítio onde os tinha deixado. A velha carcaça de pedra terá de me abrigar novamente, para me poupar a dissabores maiores. Custa a entrar... o sal seco na pele incomoda imenso, e a rigidez dos anos abandonada ao rigor das estações dói faz-me sentir algo incómodo dentro dela.
O céu azul pôs-se cinzento em instantes, e a chuva lava-me o sal do cabelo e da cara. Gosto de chuva nestas situações, disfarça outros líquidos que me escorrem cara abaixo. Mas nesta situação é escusado. A ilha não tem vivalma só a porra da torre. E a outra tripulante salvou-se a tempo com o único colete salva vidas que existia.
Preciso de comer. Mas a ideia de voltar a entrar na torre deixa-me horrorizado. Ainda assim preciso urgentemente de me abrigar, não vá acordar pior.
Aproximo-me e a porta range ainda antes de lhe tocar.
Ao entrar sinto o calor e o cheiro a mofo que emana de dentro, dou dois passos e o ar está pesa
Dia 2.
Desmaiaste ontem, foi da forma que não te custou a adormeceres. Ainda chove lá fora João, é melhor não saíres. O musgo vermelho na parede há-de servir para te matar a fome hoje. E a tua cela, a tal dos 20 metros de altura continua tal como a deixaste, mas estranhamente mais convidativa.
Dia 5
O tempo lá fora melhora, mas lembra-te dos perigos que te espreitam João. O musgo parece crescer a um ritmo considerável de noite para noite, já não te lembravas que o sangue com que escreves nesta parede o alimentava tanto.
Dia 6
A carcaça parece assentar que nem uma luva agora. A ferida parece estar a cicratizar, mas pelo sim pelo não mantém-te cá dentro João. E pára de escrever isto... Não adianta, ninguém vai querer lê-lo.
(...)
Dia 23
Conseguiste João. Estou de novo preso em ti. De novo pequeno junto a estes muros gigantes, de novo assustado, magoado, paranóico. De novo entendo que não está na tua génese seres marinheiro, e que devias aprender a não confiar em quem te convida para barcos de fundo furado. Foste estúpido, agora tens o que mereceste.
Convence-te que tens é de te ser a ti, sozinho.
É a tua sina João..."
A ouvir na altura:
"Eriatrarka" - Mars Volta
http://www.youtube.com/watch?v=V4fhUAMnF7c
A ouvir agora:
"I knew it was over" - Cat's Eyes
http://www.youtube.com/watch?v=vExWDct-hOc
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Neo-hippie on a train...
It wasn't that late, 19 p.m. but he was rather sleepy, the day had been quite full, and work had been quite hard.
He got into one of those weird yellow and red trains, and it was kind of full. Found a place to sit, and scanned his bag for the computer.
Found his headphones and pressed play on Joni Mitchell's Blue. A smile ripped his right cheek, a neo-hippie in formal wearing, wasn't that something?
She was standing two meters away from him, got late to the train, and in a matter of two or three minutes there was no space left to sit. She turned her head and their eyes linked in a green brown explosion that lasted for a few seconds, embarrassed she looked away, but he was already jinxed. Her brown red hair was amazing, and the hair in front of her forehead warmed his whole day.
"Do you want do you want do you want to dance with me baby
Do you want to take a chance on maybe finding some sweet romance with me baby, well come on" Mitchell sang in his ears.
And he just felt like getting up and sharing that song with her, but the formal side of him got the better of that impulse. Nevertheless he kept searching her with his eyes, but someone was now standing in the middle of their eye line.
The trains started moving, and it was already dark on the outside of the window, so apart for some street lamps there was not much that he could see… But, wait, reflected in the window he could see the inside of the train, and, he could catch a better view of her angular nose between her hair, completely hooked he couldn't stop searching for the rest of her face. She got a small notebook from her purse and inclined her head to read it, and he could suddenly see her small red lips, and her round chin. He never wished he could draw as much as in this moment, it wasn't like he was searching for romance or anything, but her really wanted to capture her beauty right here.
And surprisingly he wasn't over thinking, there were no ifs and buts in his mind, his imagination wasn't shooting out, the was only her brown eyes, her cute face, and that hand holding her cheeks making her look like a child. She looked in the direction of the mirror, once, right into his eyes again, but, without noticing him because of the reflection, ten or fifteen seconds later she did it again, as if she was really searching for that explosion again.
And it hitter him, he was finally living the moment, he was NOW, HERE, not tomorrow somewhere else, not yesterday in a similar situation with a different outcome, he was now, and that relieved him. Even after getting a job, getting his degree, getting his "priorities in check", he could still be just what was around him, not flying imagination not daydreaming, just accepting his life as part of the world, and that made him feel so pure, so happy.
He could finally be, and he just wanted to whisper that into her hear, "You made me realize I can live NOW".
That full almost red brown hair, those brown eyes, as deep as they come, that big light brown coat on top of her slim blue jeans… As cute as they come, as epiphanic as dreams.
"They won't give peace a chance, that was just a dream some of us had" Joni said…
"Stop complaining! Peace is here, peace is this realization Mitchell, trust me."
And there it was, the neo-hippie in him was back. In spite of the job, of the education, of the money problems and the grey…
Peace is a moment like that. Whatever they say, that is peace…
Peace is full hair, and deep eyes, thin calm voice, and hold back smiles, peace is Goldie Hawn when she was young…
Peace is an explosion, how ironic is that?
terça-feira, 2 de novembro de 2010
J's birthday
"It's her. I'm sure it's her" he thought
And the uncertainty he should feel was destroyed by his wish.
No stone resisted, and the soil of his insecurity was salted so it could never grow again.
While he walked up the hill in direction to the old fortress the fog was getting more and more dense, wetting his clothes and his hair, and waking him up a lot more than the litter of black coffee he had drunk 15 minutes earlier. But as soon as he reached the old walls he noticed that the fog wasn't as strong as he thought, since he could get a clear glimpse of the city in front of him.
5 a.m. and no sound besides the river to accompany him. He loved this silence, and he would love to share it with her. Suddenly he turned to the side and imagined her brown long beautiful hair, her adriatic blue eyes, her paper thin delicate lips, and that adorable pointing nose he loved so much. He imagined her, elbows on the small wall, shivering with the cold, just begging for an hug. He decided to give it to her, and, pointing down to the bridge 20 meter away from them he started:
"See this bridge? There used to be, way before this one existed, this other bridge "the boats bridge" they called it. It had a lot of boats, anchored in the river, with wood panels connecting them, and people used them to cross from this side of the river to Porto."
"Really?" She would say, semi-interested, semi-happy that the uncomfortable silence had come to an end.
"Yes, then when Napoleon troops invaded Portugal for the second time, and came to Porto, all people run through and eventually the bridge broke down. After that they build the Wellington bridge, which was a suspended bridge, and its pillars are still there, can you see them?"
"Not well, but what about this fortress? Why didn't people refuged here?"
"It didn't exist yet, it was built after that, actually there is a funny story about this fortress, remember how I told you Porto people are called "tripeiros"? "The animal guts"?
"Yes, that is kind of hard to forget, people must really not like you at all." she laughed, and her smile opened most of her face in the most amazing and beautiful non spoken invitation he had ever received to laugh with someone.
"No, no, it's exactly the opposite" he said between laughs " Actually it's a really big compliment."
"Really?"
"Yes, in the 18th century, after the Napoleonic invasions, and Brazil's independence, we had a civil war, between D. Pedro, king of Portugal and first emperor of Brazil, and his brother D. Miguel, who was married to D. Pedro's daughter"
"To his own nephew?"
"Yes… old royalty…you know, anyways, during the civil war, D. Pedro's troops arrived from Brasil after its independence and arrived in Porto, D. Miguel's troops sieged them in this fortress and hoped they would die from hunger. And Porto people who were loyal to Pedro would give the meat they had to the troops, and yet the remains. every night they would fill a boat that would cross from there to that point right below us, see? then they would climb this hill and give the food to the people in the fortress and run away. back."
"And so they would give the meat to the soldiers and only have the guts?"
"Yeap, pretty much"
"And you still eat those "trips tripes tripas" whatever they are, today?"
"Yeap, a blessing in disguise actually" he would laugh. And she would make a nausea face just for the hell of it giving it up for the same breath-taking smile she had done a few moments earlier.
He started going down the hill, turned around to the bridge and walked over, with the dream fading away, but feeling warm from its energy. A yellow subway passed and he remembered Vienna and the U6 and the times he saw that city waking up while he was already or still in the street. 3 or 4 people inside, the city was opening its eyes. The Sun rose up behind him and the sun rays lightened up everything in his sight, the riverside, the Port wine cellars, the gardens to the Cristal Palace, Arrábidas Bridge, the river, and the ocean. And right now, there was no one else he would like to share this with besides her.
The city opened another eye, and saw him there, standing on that 200 year old bridge alone, with a smile on his face, his hair wet, and those dreamy eyes. It yawned making a few seagulls fly over his head, shook its head making the raindrops fall from the buildings into the streets, and whispered to his ear:
"Another wishing-full heart right?"
"How do you know?"
"You are part of me boy, I just know."
He smiled proud for the compliment, Porto smiled proud of his son and said really quietly as if not to wake up anyone else:
"It's her, For sure, it's her"
"What if she doesn't feel that?"
"Bring her here, after she understands you here, she'll feel that…"
Then from the top of the old Sé's bells it just yelled:
"Wake up people. Time to wake up"
And to him again:
"Come on, move along now, she'll come… don't worry.She'll come, and I'll fall in love as much you did."
Walking in direction to S. Bento's train station, the trains brought the first people, that he could see coming out of the building, far far away.
A bus, two taxis stopped in the traffic light…
5 minutes later he was just part of the crowd. But now he knew she would come.
This is why you have to come down here J. An whole city is waiting for you :p
sábado, 17 de julho de 2010
Celta
Ah e é para ler ao som de: http://www.youtube.com/watch#!v=DMC9r3aDpBI&feature=related
Bucólicas brisas na minha cara celta, o mar à frente as costas verdes,
Galiza na certa, e eu, recentemente sem passado não sei da minha herança
sou galego ou lusitano, português? quem me afiança, a genética, a parecença
a poética, a cadência, a língua, a cabeça, a minha crença já se foi, com
o meu orgulho desfeito, e com despeito admito, que agora entendo o que
convosco não partilho e faz muito mais sentido saber-me mais portuense
que português, mais nortenho que vocês, mais atlântico que europeu, nunca
lusitano eu, que até simpatizo com Viriato, antes galego, céltico, de espada
em punho e de facto, a revolta, a vontade, a anti-autoridade, o ódio ao
centralismo, a antipatia por quem não trabalha e é rico, de repente faz
sentido, tudo faz sentido, até os meus olhos claros, e o gaélico me ter soado
tão belo na Irlanda, as gaitas de foles ouvidas nos lados de Miranda, a
vontade de me perder na Coruña e no Porto, o desprezo pelo poder e por
quem se rende ao conforto, abandonando a ideologia, eu quero autonomia,
quero independência e por isso me Ipirango todos os dias, usando mais B's
em vez de V's dobrando os l' em lh's e sonhando mais vês? Sorrio bem mais
Porque sou bem mais, vitais as raízes os países a que me acostumais
não são nações apenas fronteiras, e eu cá traço as minhas, as tradições e
as manhas são divinas e a civilização que é? se não a expansão de cada
um e a reunião do que todos são em comum? E que tenho de comum com Lisboa?
A língua? também com o Norte, a história? só metade o resto só o tenho
com o Norte. Convençam-se não é ódio mas pertenço mais ao que a Galiza
foi do que àquilo que Portugal é. Celta...
sábado, 5 de junho de 2010
E contudo esqueço-as.
De mudanças que me prometi,
E que não vieram.
Ah preguiça; sempre tu..
ponteiros no relógio,
letras no calendário,
folhas nas árvores,
números em velas.
E a barba ficou-me maior,
o cabelo mais curto,
o discurso sarcástico,
o sorriso moveu-se centímetro
a
centímetro
para o canto da boca.
(até aí o desprezo ao centralismo)
Encontrou-me e disse: "Mudaste, estás diferente!"
"Não mudei, esqueci-me"
"De quê?"
"De ser também os outros."
"Fechaste-te? Os teus olhos parecem-me mais duros."
"Não, de todo, abri-me"
"A quê?"
"Às ideias, à terra,
ao que ficará cá depois de mim,
depois de ti, quando todos se esquecerem de nós"
Os antigos deixaram castelos,
Igrejas, túmulos, muralhas.
Nós deixamos o quê? Betão?
Por 50 anos? 100? 200?
Estamos condenados a ser
mero passo no livro do tempo
E
fé
me
ros.
Deuses maiores dos nossos mundos
apenas tão eternos quanto nós
domingo, 2 de maio de 2010
Do alto do monte do largo da Igreja da Malpartida
Ou os desafinanços crassos dos fadistas do La Feria?
Ou as noites mal dormidas de ontem, e anteontem?
E d'antes e d'hoje.
E Dantes é hoje comédia?
Não divina, mundana,
Na boca de quem de Infernos fala
Sem despeito algum em criá-los.
E minha geração reclama,
Ao café curto,
Ao copo de fino
Ao recibo que de esperança só tem a cor.
E minha geração não reclama
Ao Estado
Á comunicação social
Ás ruas.
Muito menos aos que nos puseram aqui,
e,
nos culpam de cá estarmos.
VOCÊS,
VOCÊS MATARAM O 25 do 4
VOCÊS MATARAM O 1 do 5
VOCÊS MATARAM A PRIMAVERA DO 74
VOCÊS MATARAM O VERÃO DO 75.
Agora acusam-nos
da violência
da falta de pensamento crítico
da falta de classe
do não sermos politicamente correctos
do não sermos socialmente maduros
de sermos ignorantes...
E para mim o correcto não é o politicamente
A cultura, a classe, a maturidade
Está em ser-me e em deixar ser,
E em viver verdade...
E na verdade...
QUERO QUE VOCÊS SE FODAM
Mais os críticos e os lambe-botas
E os nacionalistas e os instalados
E os subsidiários e os políticos
E os moralistas e os colunistas
E os escritores (aqueles mesmo de cordel e de pseudices que são quase quase quase quase todos)
E a comandita da Capital
E os ladrões do capital
E os banqueiros e os gestores das públicas
E mais os Mellos e os Champalimauds
E mais os Soares e os Coelhos
E os que dizem que o Saramago é que é ché ché
E que o Jardim diz as verdades
E que o Sócrates é líder
E que o Marcelo sabe.
E as caras da Caras
E as sombras por trás das caras
E as maçonarias e as secretas (a podridão do organismo social)
E as finanças e os défices (os botoxes do mesmo)
E os que não sabem fazer um filme sem mostrar mamas
E os que não sabem fazer um filme fora dum computador
E os que não sabem escrever sem um monitor
E os que não gostam de palavrões mas gostam de dizer "V O C Ê"...
Sigam-nos alegremente ribanceira abaixo...
Não nos fazem cá falta nenhuma.
Eu cá virei já as costas há muito
Sou nortenho, europeu e só depois, bastante depois português
Não porque não ame a minha pátria
Mas porque sempre que ouço falar em Portugal, me lembro de vocês...
E para mim, Lisboa não é capital.
Pobre e bela Lisboa, melhor sorte merecia
Lisboa é Lisboa apesar da Capital
E do Capital...
E da corja...
Cambada de Dantas.
domingo, 25 de abril de 2010
Entre o neo-tradicionalismo e a ignorância
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
revenge
A noite surpreendera-me, o vento frio também... A minha pele enrigecia-se e a t-shirt que trazia vestida pouco fazia para me aquecer, mas não queria ir para casa. Não... A tua imagem não me saía da cabeça, os teus olhos azuis, as tuas repas castanhas claras, o teu sorriso, invadiam-me e faziam-me sentir zangado com o mundo. Metade das músicas que tinha no mp3 lembravam-me de nós, a outra metade lembrava-me o quanto me esforçava para te esquecer... Odeio-te por razão nenhuma. Odeio-te por vingança, pelo indiferente que me sinto na tua vida, por saber que enquanto perco tempo a pensar em ti, sou provavelmente o último pensamento que te passa pela cabeça. Levanto a mão direita para proteger a chama do isqueiro, e rio-me da ironia... Logo tu que não gostavas nada que eu fumasse, logo tu que te ipirangaste à minha frente de cigarro nos dedos e sorriso sarcástico como se o que nós fôramos fosse mesmo nada.
Lá longe no outro extremo da Europa, fosse esse extremo Istanbul ou Viena, tu continuas a tua vida, e, eu nada sei de ti... Não que sinta necessidade de saber, não que sequer sinta curiosidade, mas irrita-me saber que te foi tão fácil descartar-me.
Caralho pó Johny Hartman, e para o Chet Baker, e para todos os outros que me cantaram histórias de amores perdidos ou impossíveis. E como tu gostavas de os ouvir... Estragaste-me o slow jazz, estragaste-me as nonas e as sétimas, e eu que evito cantar por saber que tu gostavas de me ouvir.
A chuva rebentara já há uns minutos, forte, intensa, como tu cá dentro, destapando o meu ouvido esquerdo. Uma pinga caiu-me mesmo em cheio no cigarro... raios... era o último.
Não havia vivalma nas ruas, quem raios seria suficientemente louco para caminhar por elas debaixo desta intempérie sem algo para esquecer?
Soil and Pimp e Mo' Better Blues, e as saudades de pertencer a algo. É disso que sinto falta, não de ti, não da tua cabeça dura e das nossas milhentas discussões àcerca de absolutamente nada. Sinto falta de ser capaz de sonhar, de ter objectivos (que na altura eram nossos, mas que neste momento podiam pelo menos ser só meus...). Sinto falta de recusar os seus sorrisos vampirescos de quem me quer só pela impossibilidade de me ter. Sinto falta de lutar por algo.
E odeio-te por me teres roubado isso.
E odeio-te por teres tornado todas as histórias depois de ti, não mais que menosprezíveis ao lado da tua.
E odeio-me por tanto tempo depois (anos até) ainda sequer me lembrar como é que se escreve o teu nome, canim. Canim o caraças... como diria o Stray isto destruiu-me a vida... mas até lhe achei piada...
Vá-se o amor, fique a ironia... Hein Di?
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Jelena
Dedicated to Jelena (it's your birthday gift girl... hope you like it...)
She walked in at the first chords...
My eyes just went bezerk looking for her, and so were all the eyes of all the guys on this bloody room. I couldn't care less. I knew I had the skills, I knew I was different, I knew I had something else, or I thought I had something else... damn...
Just by watching her black long hair falling through her white back, distinguishing her from the blonde status quo of this Vienese club, I was feeling myself falling.
She smiled in my direction, her blue eyes fixed my green ones and that was it... Her enchantment was already working, as if she was this gipsy trained in the black arts of sexual attraction. "Damn jagga, damn man... you're lost" I knew I was hers for her to rip me appart at her will.
The guitar echoed in my mind like a strange distant dream. Reverb and overdrive, overdrive and reverb, I couldn't even think clearly, like if I had too many grass flowing on my mind (it wasn't the case).
She hadn't even said a word, and already I knew my world would never be the same after this night... "How? I thought, how the hell did she weakened you this easily? It's not like she even tried to...Damn man, you gotta put it together, come on, act normal, act normal, ACT NORMAL fuck fuck fuck fuck...".
"Hi jagga." she whispered in my ear teasing me.
"Hey J. wassup with ya?"
"You... I guess..." and took like two seconds to restart as if testing my reaction "You are happening now."
" You know I ain't up for your normal games."
"I know, I know, that's what makes you so playfull, I've to invent new games just for you."
"No, you misunderstood, I ain't up for games, no games, any."
"Oh.... We want to keep it simple do we?" She mocked me
"I'm tired of y'all... you complicate too much"
"And still you came tonight, knowing I'd make a toy out of you"
"Maybe I was just expecting you to be different from that."
"L-O-L... Come on jagga, who do you think you're convincing? We are both too adult to be joking around this... You're a smart guy, you know me, or if you don't know me at least you know my type, you couldn't be expecting me to be that different"
"Well... point taken...Still I'm not up for games... You're as excited about this as me, and if you think I'm just gonna behave like a dog without owner, you're kind of mistaken..."
"You men... Always thinking you are different, and yet, you always surprise us on how equal you are...Male conscience is really unique... unique and shared by all the million males on the Earth, taking you out of your comfort zone is like cutting your balls."
"Damn I told you I wasn't into this J.... I'm leaving."
"You'll come back... I know it" she laughed...
Two hours later, I'm still looking at my cell phone hoping she'd at least text me to meet her or something...
"Damn she really got you..." I laugh, and walk home, still hoping she'd call.
Truth is, in two days I'll get tired of waiting and I'll break the silence... she put me out of my comfort zone indeed...
Damn her gipsy spell... damn her blue eyes and straight long hair, and damn her petite perfect body which I just wanted to hugh as tight as possible altough she's "too cool" to let me do it just like that. Damn those beautifull narrow lips begging for mine. Damn the weakness she was devoting me to. Damn her games which I didn't want to, but had to play. Damn the curiosity. Damn her punkness which was driving me mad... Damn her, and damn me for knewing I was about to break...
She'd me figured out, and that added to the challenge. I just couldn't back out now.
"I'll get you J. I will, you just wait and watch..."
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A ouvir:
Steppenwolf
"Pusher"
álbum: Steppenwolf
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
pós beatnick
domingo, 11 de outubro de 2009
rejeição
"Outra vez com essa cara moço?" perguntou...
"Parece que não me conheces outra, né?"
"Então que é que se passou desta vez?"
"Lembras-te da miúda dos caracóis?"
E exorcizou-a em palavras, como se o facto de a descrever o obrigasse a admitir o absurdo que era pensar em alguém de forma tão grande, tão pura, tão amável...
E contou tudo, desde o sorriso que ela lhe dera, como o sorriso que ele não lhe conseguira dar, o caminho do nervoso miudinho à paixoneta ao incómodo e ao inevitável nada. Mais uma que se interessara fazendo-o imaginar que as coisas poderiam melhorar e ficar boas, mais uma que perdera o interesse e se afastara mesmo que ele não a quisesse prender, ampla história da sua vida. Ampla história da vida de todos os que estão pré-destinados a nunca serem mais do que tentativa.
"E o mais surpreendente é que eu nem a queria assim tanto" acabou por confessar "mas a ideia de voltar a ter alguém sorriu-me tanto..."
"Deixa... outras aparecerão rapaz...aparecem sempre..."
"Pois, mas era mesmo dela que eu gostava... a rejeição tem sempre este efeito, amplifica sempre o nada que sentíamos ao ponto de parecer alguma coisa..."
"True son, so true..."
E a Lua de amarela passara a branca lá em cima e o mar acalmara o suficiente para um mergulho às 3 da manhã...
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A ouvir:
João Gilberto
"Insensatez"
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Condição
Condição
hipoteco-me nas palavras que não dizes,
génios perdidos com desejos meus,
Noutros, a outros,
Sorte a deles, nunca minha.
Caminho sobre passeios imaginários,
Molha-me a chuva da certeza,
nada, mesmo nada
disto é, nem foi, ou será.
É a vida quem arrasta a tristeza,
não eu...
sábado, 26 de setembro de 2009
Dia 2
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Mood update
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Viena, Janeiro próximo (?)
Acordei com o chão do quarto repleto de cervejas, e senti-me encharcado, olhei para a janela aberta e sorri à neve que cobria os telhados e terraços do quarteirão inteiro, fechei-a e fui tomar banho.
Enquanto a água do chuveiro me caía em cima e aquecia tentava recuperar da ressaca horrível que ia sentindo, lembrei-me que tinha combinado contigo, abri a cortina e olhei para o telemóvel, estava já em cima da hora, escrevi à pressa uma mensagem a dizer-te que ia chegar atrasado e tratei de me despachar.
De volta ao quarto saquei da minha t-shirt castanha, e cheirei-a para ver se estava suficientemente limpa para a vestir, o teu perfume circulava nas suas fibras e nem pensei duas vezes. Vesti as calças enormes que já mal me serviam dada a quantidade de peso que perdia dia após dia (efeito da muita bebida e pouca comida certamente, mas para quê preocupar-me com isso?) e o casaco "contestatário" castanho escuro.
Saí do apartamento, chave no bolso direito, móvel no bolso esquerdo, leitor de mp3 ligado para uma qualquer música preenchida de bombos de bateria e de uma voz gigante.
Desci as escadas à pressa, algures entre dois andares um rosto amigo sorriu-me, disse "Olá, talk to ya later bro." e continuei a correr, abri a porta escorreguei pela neve fora até ao tram e senti as primeiras gotas a cair, subi as escadas e sentei-me e estranhamente estava já encharcado outra vez, sentia a água a escorrer-me pelo pescoço até às costas e olhei em redor. Uma multidão de rostos encharcados seguiam a sua viagem, sem sorrisos, sem palavras, perdidos nos seus próprios mundos interiores, tal e qual como eu, Wahringer Strasse nunca me parecera tão longa, pensei se me compensava apanhar o metro e decidi sair em Alserstrasse correndo até Floriangasse, tinha de passar pelo Tunnel ainda, para pedir à Juliane que entregasse o trompete ao Henri.
Subi os degraus e sacudi o cabelo, e entrei. O cheirinho a café quente e as cores quentes cumprimentaram-me com um sabor a casa.
"Grussgot Juliane!"
"Grussgot"
"Wie gehts?" tentei
"Gut gut, Are you ok? You're all wet... Is it rainning that much?" e eis o recurso ao inglês fazendo-me desistir de me armar em entendido desse alemão tão particular que é o vienense...
"Guess so, anyways, Henri is coming today at midday his trumpet is in the instrument room downstairs, can you give him my key so he can open it?"
"Sure jagga, don't worry... by the way how was the jam yesterday?"
"Good, quite good I'd say, heard anything about it?"
"Nope, well Mathias liked it, but you know him, he always likes your shows."
"Yeah, he's got quite a biased opinion" ri-me
"Yep, that's true, well gotta serve the costumers, Are you going anywhere now? Do you want to eat something? Looks like you could use a breakfast."
"I'll come later, don't worry, I'm going to meet a friend now"
"Ok, see ya then!"
"See you dear."
Voltei ao frio da rua e decidi fazer o resto do caminho a pé, estava atrasado e estava, e o desvio para o tram ainda era longo pelo que me podia fazer ganhar tempo, como poderia fazer perder tempo, o risco não me parecia compensar. À medida que me deslocava para o Ring a sensação de molha voltava, olhei para cima e vi-a:
Surpreendentemente baixa, talvez a uns 5 palmos da minha cabeça, uma nuvem minúscula e negra descarregava água em mim com toda a fúria possível. Olhei em volta para os edifícios que me rodeavam, pensei nas memórias todas que me traziam, ela e os seus olhos azuis que ainda impregnavam esta cidade tantos anos depois... O seu sorriso lindo, aberto, o seu cabelo pintado, aquele nariz empinado, o facto de que ela vivera aqui durante tanto tempo, e aos anos que já nem ouvia falar dela. Senti-me como me tinha sentido naquele mês de Setembro, sozinho, escuro, triste. Pensei no que poderíamos ter sido, e em má hora o fiz... Comecei a pensar no que poderia ter sido com tantas outras, e no que nunca tinha conseguido ser, e no quão inseguro era hoje por isso, perdido na Viena cinzenta que só faz sentido para quem já lá foi triste.
Pensei no quão inconcebível seria para ti provavelmente, tudo isto, no fundo, nunca viras Viena senão com um sorriso, e gostava de ti por isso, pelas memórias que não partilhavas comigo, pelo facto de sabendo tanto de mim não fugires. Está certo que não corrias para mim, era mais que notório, mas no entanto não me afastavas, mesmo sem nunca me teres prometido nada... E lembrei-me da Elis Regina e de Ossanha traidor e sorri à ironia com jeitinho malicioso.
A chuva continuava, e eu continuava circulando de pensamento em pensamento, sempre pensara que a única forma de escrever algo de jeito seria numa cidade assim, opressiva na sua imponência, desafiante na sua beleza, cinzenta e escura na sua alegria até. Desviei ao Miles Smiles onde cumprimentei o velhote de cabelo ondulado e grisalho.
"Hey there kiddo.."
"Good morning."
"What do you want today?"
"A beer, but just give me a can, I gotta run"
"Crazy latino" gozou-me
"Cranky austrian" retorqui
"True, true, always complaining me good ol' me, 'tough you are living the good life man" Num sotaque mais escocês que vienense, que sempre me fazia rir.
"Really think so? Haven't been seeing it much that way..."
"Girl problems?"
"Bah, that comes with being a man, naaah... more like life problems... kinda feel lost..."
"You always will The meaning of life is for the Gods to know and for the humans to break their heads trying to figure it out. Well now, I just noticed your little companion." e apontou para cima da minha cabeça
"Yep... 's been following me since I left home, don't really know why..."
"Feeling blue?"
"Nah just feeling the blues... not happy blues, not sad blues, just the blues"
"There ain't no such thing as apathic blues kiddo."
"Guess not... Anyways where's that freaking beer?"
"Here you go, no runnin' man, no runnin' coz I'm a cranky old guy, man."
"So was Coltranne and he was only 37 * "
"You learn fast I see" sorriu
"Well euro and half right?"
"It's on the house, just get rid of that cloud man.See you later?"
"Bah band practice, so probably around midnight."
"Ok, bring the drummer, I like joking with the guy."
"Yep, Simon's a good guy indeed. Auf Wiedersehen"
"Adiós"
"Adeus, not Adiós. portuguese not spanish."
"Spanish, portuguese, what's the difference? All latinos, and all preferred by austrian girls..."
"Who cares about austrian girls?" ri-me e saí enquanto as suas gargalhadas ecoavam porta fora.
Abri a lata enquanto andava, e despachei-me a bebê-la... dois goles, três goles, e quatro e cinco. Dois passos, virei-a sobre mim e bebi o resto dum trago, amassei a lata e atirei-a para o caixote à minha frente, saquei um cigarro do bolso e escondi-o dentro do casaco para não se encharcar, acendi-o e protegi-o debaixo da mão quase fechada... Enquanto passava pelas montras da Josefstadter observava a nuvem por cima de mim a ganhar força... Reparava também em como todos os que passavam por mim iam também eles encharcados. passei pela Rathaus e desci até ao Volksgarten, o jardim coberto de neve estava fantástico. Peguei no móvel e liguei-te disseste-me que estavas a chegar, olhei para a paragem de tram e vi-te lá ao longe, casaco de malha cinzento top amarelo, sorriso gigante, e uma alegria gigantesca emanava de ti. Acenei-te levantando uma cobra de água que correu do meu braço para o céu e caiu escassos centímetros no chão à minha frente marcando a neve. Fiquei parado à espera que te aproximasses e à medida que te aproximas reparo que a luz em ti é diferente, por alguma razão estás mais colorida que tudo o resto à tua volta, e então reparo que ao passares a neve derrete-se, as nuvens desaparecem, as pessoas começam a falar umas com as outras, sorriem, riem, as árvores reganham as folhas em questão de segundos.
Chegas-te a mim, dou-te um beijo demorado na cara, molhando-te, mas tu pareces não te importar minimamente... Agarras a minha mão direita, com a esquerda limpo a face das gotas que ainda escorrem, a minha nuvem passa diante dos meus olhos de cinzenta a branca, de branca a Sol, e o meu Sol junta-se ao teu num único gigante que começa a subir em direcção ao céu afastando neve, nuvens, humidade, frio, cinzento, tudo...
"Vamos ao MQ." dizes-me enquanto te encostas a mim para que eu te abrace com o meu braço direito.
E o Verão imita-nos e abraça Viena a meio de Janeiro.
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A ouvir:
Florence and the Machine
"Howl"
álbum: Lungs
*Aos 37 John Coltranne publicou "A Love Supreme" uma das obras mais influentes do seu quarteto clássico, era a minha private joke com o dono do Miles, (do qual percebi agora, nunca soube o nome) costumava gozar e dizer que ele se tinha atrasado 10 anos em relação à pop, e ele dizia "nah... jazz just keeps you from aging as fast on the outside, you just age inside... like good'ol wine"
domingo, 13 de setembro de 2009
Desinspirado...
Não tenho tido pachorra para escrever nada de jeito, e por nenhuma razão em particular... acho que por cá o Verão morreu antes de acabar... Obrigado a todos os que me têm visto ser novo sendo velho :)
E sim o "poema" abaixo é uma treta... mas... para não dizerem que é por preguiça... tenho tentado mas... enfim:
Perdido em passos que já dei..
Sorrindo como já sorri
Não feliz, apenas habituado...
Tanta coisa em meu redor,
Novo, tudo novo, e bom
Mas...
Ah a brisa do mar traz-te...
E tu do novo és o mais velho,
E bom, mas...
Não ao meu redor.
Sorrio como já sorri,
é do hábito.
Perdido em palavras que temo
mesmo não as tendo ouvido..
Ainda, parece-me...
Sorri pequena... sorri, que se for sincero é bom.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
E porque a saga de Zakopane ainda não está perto do fim, deixo-vos com uma brincadeira de hoje:
"Bom dia" sorriram os seus olhos quando os meus se abriram.
"Oi pequena" a minha voz ensonada abria os panos daquele início de manhã, o Sol a bater no chão de madeira lá ao fundo deixando atrás de si um rasto de um branco amarelado intenso, luz, luz, luz, luz, luz... Imensa luz brilhante e nova que reflectia em todo o quarto até bater nos seus caracóis grandes fazendo-os quase louros.
Pisquei os olhos, espreguicei-me num bocejo para não a incomodar, e estiquei o meu corpo numa posição de prancha para não desprover os nossos corpos nus dos lençóis que os cobriam.
"Estás acordada há muito?"
"Não..."
"Estás a ver-me há muito?"
"Há algum tempo, sim."
"Observar-me então custa-te mais que estar acordada?" gracejei.
"É novo para mim, envolve esforço, envolve respeitar cada respiração tua, envolve não te ter a falar comigo, ter-te silencioso é quase uma nova experiência sabes?"
"Estás a queixar-te?"
"Não, nem me passaria pela cabeça tal... estou apenas a dizê-lo para que compreendas que tudo isto é novo para mim. Bom, sim, sem dúvida, mas novo ainda assim. Não sou tão experiente nestas coisas como tu..."
"E recomeças?Já te disse que isso são balelas, não sou experiente, não contigo, nunca contigo."
Os seus olhos reduziram-se a frestas felinas, o seu sorriso abriu-se numa boca já larga de lábios extremamente finos, delicados, bonitos. Apanhara-me na sua própria brincadeira, num jogo de que eu era mestre... "Psicologia invertida... que treta." ri-me.
Passei a minha mão por cima dos ombros dela como num abraço, e virei-me sobre ela, prendendo-a entre os meus joelhos libertei os meus braços e fiz-lhe cócegas na cinta, fazendo-a contorcer-se sob mim, mais e mais e mais, até culminarmos num beijo. Apaixonado, grande de tão pequeno, o mais próximo do eterno que alguma vez estive...
Levantei-me. "Onde vais?" "Volto já pequena." "Hmmmmmm" soltou ela num gemido lânguido e preguiçoso e querido que englobava toda aquela manhã numa única onomatopeia, com o braço puxou os lençóis para cima de si e deitou-me um "estás a olhar para onde parvo? Vê lá, vê.." que me deixou aparvalhado sem saber o que dizer. Ri-me, nessa tentativa de escapatória de quem não sabe mais o que dizer, e abri a porta de madeira escura na minha frente entrando na casa de banho.
A luz reflectia nos azulejos claros pela janela minúscula por cima da sanita, espreitei para os campos lá fora, onde o trigo ia já alto avisando que o Verão estava já quase a acabar.
Lavei a cara, passei as mãos pelo cabelo, ajeitei as boxers mal vestidas, lavei os dentes, e voltei para junto de ti: "Vamos dar uma volta? Aproveitar o Alentejo?". Ficaste calada... Abanei-te um pouco, gemeste outra vez e disseste-me "Volta para a cama, temos mais que tempo."
E eu acreditei em ti, e voltei, sempre quis ter tempo com alguém assim do lado, e nunca o tinha querido tanto como agora, como contigo. Enrolei-me nos lençóis, pousaste a cabeça no meu peito e adormeceste mais um pouco... A paz do teu rosto, entre olhos fechados e o rosto tapado pela tua juba enorme era tudo o que eu precisava, agradeci-te, e perdi-me no sonho contigo...
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A ouvir:
"Stay where you are"
Ambulance LTD
álbum: Ambulance LTD
Zakopane pt.5
Os "ch's" e os "obra" e "ova" e cj" eram tão constantes que ao fim de algum tempo tudo o que a minha cabeça retinha era uma sessão contínua e quase inexpressiva deses sons. Ao subirmos o caminho rente à montanha Anja apercebeu-se da minha debilidade, embora eu me esforçasse ao máximo para a esconder e obrigou-me a parar para descansar, fingindo-se, ela própria, cansada tentando assim não me ferir o orgulho.
Disse-me "Halt" e ergueu o punho no gesto militar de paragem, e eu, na brincadeira, marchei até ela arrancando-lhe novamente as ruidosas gargalhadas que tanto me animavam.
Cá de cima via metade do caminho que havia feito desde hoje de manhã, elevei o polegar ao olho cobrindo-o e pensei "Tanto tempo para cobrires um polegar de terreno... a trigonometria é tramada, não é ti jagga?
Levantei-me de novo e fiz-lhe sinal para seguirmos, ela fez-me sinal para que me sentasse novamente, que precisava de mais descanso do que aquele. Acenei que não e dei um pulo, ao que ela acedeu ao meu pedido levantando-se e acelerando o passo o suficiente para me deixar para trás, como se me atirasse à cara que o orgulho tem limites.
A falta de oxigénio ali tão perto do Sol quente, o caminho de gravilha onde as minhas sapatilhas escorregavam de três em três passos, a minha falta de condição física e os excessos dos últimos dias, todos se uniam, personificados naquele granito cinzento à minha esquerda, que se erguia em direcção ao céu azul separando-me deste. do sítio onde estava, o topo da montanha parecia pender das poucas nuvens brancas que agora se viam, como se elas suportassem o peso do vale à nossa direita inteiramente, fazendo-os pairar sobre um qualquer mundo subterrâneo longe desta vista paradisíaca e verde polvilhada de flores e borboletas com os pássaros a entoarem permanentemente cantos em honra da beleza deste lugar.
De súbito, após uma curva na montanha, o caminho começou a descer imenso, em direcção ao que me parecia uma parede rochosa, mas como a minha guia permanecia segura, menos não podia fazer que segui-la. No fim da descida encontrei-me frente a frente com um desfiladeiro gigantesco, com paredes gigantes do mesmo granito que o topo da montanha que acompanháramos até agora. Pensei no quão pequenos ambos pareceríamos vistos lá de cima, de mais de 30 metros de altura, ao abandonar o verde colorido e a deixarmo-nos engolir pela boca das montanhas que nos desafiavam. Os nossos passos começaram a ecoar, e a dor nos meus pés aumentou consideravelmente, o cascalho crescia aqui de dimensão o que tornava bem mais difícil o apoio dos pés para alguém desabituado a estas caminhadas longas. Já Anja movia-se com uma agilidade quase felina como se fizesse aquele caminho diariamente, Ao ver a minha falta de jeito para me apoiar voltou atrás, e segredou-me algo que obviamente não entendi, percebi, no entanto pelo tom grave e pelo olhar dela que aquele lugar teria provavelmente uma qualquer mística especial, Levou o indicador aos lábios desgastados, num desnecessário sinal de silêncio e eu assenti educadamente.
40 passos à frente, quando o caminho sinuoso passou a impedir-me de ver a entrada do desfiladeiro, aproximou-se da parede direita, e ajoelhou-se, ao alcançá-la apercebi-me do pequeno altar ali presente e acompanhei-a bezendo-me frente a uma Maria vestida de branco, sinal do Sagrado naquele sítio nitidamente divino de tão paradisíaco. E ali, parado entendi que aquele sítio onde de repente me dirigi em oração àquela Santa (eu que de religioso não tenho nada) percebi, que mais do que procurar a fé, tinha sido encontrado por ela, não a Fé numa crença divina, mas a fé em mim mesmo, a fé de que qualquer que fosse o caminho que seguia, me encontraria a mim, ao encontrar verdadeiramente os outros.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Zakopane pt.4
"Janado do caraças.", ria-me eu, recordando aqueles olhos minúsculos e o cabelo sempre colado à cabeça, a voz monótona sem nunca se exaltar nem sequer soltar uma gargalhada, rindo-se sempre baixinho e dizendo "E apesar de tudo invejo-vos latinos por conseguirem ganhar as pessoas tão facilmente.". Pessoalmente nunca percebera quem tinha ganho quem, se o Simon a mim, se eu a ele. Sei apenas que quando o conheci me sentira intimidado pela impessoalidade germânica dele, enquanto ele não gostava nada dos meus modos mais calorosos e abertos. Mas, de repente, sem nada o fazer prever, à bendita e clara luz dumas Wieselburgers e dum dj set do senhor Peter Kruder entendemo-nos perfeitamente e ganháramos uma cumplicidade inacreditável.
Agora, no meio das florestas do Sul da Polónia, e longe do conforto industrial e negro do Flex, o realismo começava a entrar-me pelos poros abertos com o suor e a invadir-me o espírito, "O búlgaro tinha razão pá. O caraças do búlgaro tinha razão, estás aqui no meio do nada, sozinho à procura de algo quase impossível de encontrar", e, logo a seguir como que expelindo-o o cinzentismo: "Quase impossível!! QUASE! QUASE! QUASE! QUASE!" chegando ao ponto em que o pensamento passara da voz alta e daí a berro, acompanhado de um punho erguido estúpido isolado mas demonstrador do quão desesperado estava e do quanto precisava de me convencer de que não estava a andar para nada, por mais perdido que estivesse.
E eis que nesse momento em que estava sobre a corda bamba, num vai não vai de esperança, um milagre aconteceu, de repente um grito em polaco chegou-me aos ouvidos, corri para fora do arvoredo, feito tolo em direcção ao vale florido, onde seria mais fácil ver e ser visto. Com a pressa tropecei numa raíz, voando dois metros e espalhando-me ao comprido na relva, levantando em meu redor uma nuvem gigantesca de pólen que subiu no ar, cumprimentando-me como Deus criador das futuras flores deste vale, e pensei no quão aleatória era a criação. Como se o Acaso esperasse por mim para iniciar o processo de fecundação neste vale, levando agora o amarelo início de vida na brisa.
As gargalhadas gigantescas estalaram ruidosas mas doces e profundamente humanas, desviando-me a atenção da minha reflexão quiçá parva. Olhei-a enquanto me aproximava, devia ter uns 50/60 anos, envolta na sua saia verde escura e a camisola negra. grande, larga, cabelo contrastando entre o negro e o grisalho, olhos daquele azul inexpressivo de tão claro. Ao ver-me aproximar o riso diminuiu, mas o sorriso manteve-se, demonstrando serenidade, calma, e simpatia perante o meu aspecto deslavado e da minha cara agora amarela do pólen.
"Do you speak english?" sonhei eu...
"Niet" disse num sorriso enorme de quem me entendera como turista perdido, (e de resto o que era eu?).
"Français?Deutsch?Español?Português?"
"Niet, niet" e o sorriso cresceu, "Russky?"
"Niet" disse eu agora quase rindo.
Levantou oito dedos e disse algumas palavras perdidas novamente no meio das suas gargalhadas sonoras e boas, como quem diz: "8 línguas diferentes, 8 meu Deus, 8 línguas e não há forma de nos entendermos."
Acenei com a cabeça e encolhi os ombros. Ficámos parados a olhar um para o outro por uns segundos, até que me lembrei que tinha papel na mochila, saquei da caneta (nova gargalhada quando viu as garrafas, ao que lhe ofereci e me recusou com um sorriso sincero).
Escrevi "João" e apontei para mim, feito parvo arranhei o pouco alemão que sabia, como se este lhe fosse mais próximo... "Ich bin João."
"Ju-a-u?"
"Jo-ão, João" disse lentamente.
"Ju-a-um?" perguntou.
"Ja ja, und dir?" perguntei apontando para ela.
"Anja."
"Anja..." repeti, unindo as palmas e curvando-me numa vénia quase teatral.
Perguntou-me algo que não compreendi, mas que deduzi que fosse a minha origem:
"Portugal" disse com sotaque inglês, a sua cara foi de estranheza, "Por-tu-gal" repeti lembrando-me a diferença do "tch" e do "t".
"Ahh Portugal..." parou a pensar uns segundos "Simon? Simon freunde?"
"Ja Ja JA JA SIMON FREUNDE JA... UIIIIIIIIIIII" Saltei eu de alegria, "Simon sehr gut freunde uh ja, genau genau, um amigalhaço sim senhora" explodi eu abraçando-a, ao que ela respondia com mais gargalhadas, achando-me maluco. Recuei, vi-a sorrir-me e fazer-me sinal para que a seguisse, pedido a que atendi prontamente, correndo em torno dela e gritando "Obrigado Anja, Obrigado é merci" e ria-me feito tolo, fazendo-a rir-se da minha tolice, percebendo a inocência nela contida...
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A ouvir:"Alive"
Sa Ding Ding
álbum: Alive
link
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Zakopane pt.3
No jogo do toca e foge entre o Sol e a àrvore que me servira de encosto durante a noite, a luz acabara por vencer o caminho até à minha cara, acordando-me para o mato que me rodeava.
Olhei para a clareira à minha frente procurando amoras ou mirtilos nos arbustos, e fui surpreendido por uma trepadeira que abraçava um carvalho, carregada de frutos vermelhos que pareciam maçãs em miniaturas. Observei as que estavam mais altas e que estavam debicadas pelos pássaros, decidindo-me a comê-las.
Tinham um sabor amargo, mas a consistência era semelhante a uma pera, embora menos sumarenta.
Recolhi algumas para um saco de papel, abri a pasta e troquei-as pelo telemóvel que me apontou as 11 horas seguidas que dormira.
"E cansado estava" disse em voz alta "Vamos é beber uma jeca para aliviar a dor de cabeça matinal." ganhara este hábito de falar sozinho em voz alta para ter a certeza dos sons do m
eu português. Como que para me convencer que o meu país estava ali dentro do meu cérebro e que não me abandonara. Tentava assim evitar que os meus pensamentos fugissem para o inglês, ou para o francês mal amanhado, ou ainda para o meu portuñol (versão pr´pria dum galego que não conhecia tão bem como isso), e, assim, manter o meu pedacinho rectangular junto ao mar na memória.
Caminhei os 15 metros que me separavam do rio para redescobrir as garrafas que lá havia posto no dia anterior, geladas pela àgua que descongelava das montanhas ali perto, ao alcance dos meus olhos. Dei um mergulho rápido, sentei-me na margem, tirei o isqueiro do bolso das minhas calças estendidas na relva da margem, abri a Lech e saboreei cada golo como se fosse ambrosia divina a escorrer-me pelas goelas.
Há cerca de três dias que não comia uma refeição digna do nome e, algo me dizia que não o faria tão cedo, mas sentira-me bem até há noite anterior, de embriaguez em embriaguez atirara no meu pensamento, a fome que sentia para a gula, mas neste momento em que essa sensação passara, o meu estômago aproveitava para apregoar as suas queixas à minha cabeça, mas tirando os projectos de maçã, "E mal os posso considerar mais que um petisco", não tinha nada por perto, pelo que tomara a decisão de beber duas cervejas de rajada para enganar o organismo. Abri a segunda, e ao fim desse segundo meio litro em jejum, já me sentia trôpego o suficiente para me perder a pensar noutros assuntos. Arrumei as minhas coisas, voltei ao rio, recolhi as garrafas cheias e vazias pondo-as na minha mala de tiracolo, e segui em direcção à nascentedo rio, seguindo também o pensamento de
que subindo a montanha poderia ver toda a região à minha volta.
Fresco do banho e com as pernas descansadas da noite, avançava a um bom ritmo por entre as árvores, sempre paralelo ao rio, e mantive o ritmo durante um bom par de horas. talvez mais... Começara, no entanto a suar, o que significava que o álcool saía do meu organismo na mesma proporção em que as dores de estômago e de cabeça voltavam. Ia bebendo água do rio para me ir enchendo e ludibriar a fome que sentia. Tentava guardar o álcool o mais possível por não saber quanto tempo passaria sem ver gente.
De súbito, ao virar do rio, o meu maior medo concretizara-se. À minha frente, o arvoredo acabava, e, a paisagem abria-se numa planície verdejante, polvilhada pelo amarelo e rosa das flores que saltavam por entre a relva. Por mais bonita que fosse esta visão "E é-o de facto" significava também o fim da sombra, e isso assustara-me. Tentei seguir o rio com os olhos, para ver se haveria alguma floresta por perto, mas apenas um ou outro carvalho isolado me apareciam, nada que me protegesse dos mais de 30 graus do Sol polaco.
Voltar para trás também não era uma opção muito atraente, ao todo devia já ter percorrido umas 9/10 horas a pé desde o ponto onde o búlgaro me deixara. fosse como fosse também não sabia a partir daí como chegar à localidade mais próxima, pelo que decidi afastar-me do rio, e tentar subir a montanha por entre a floresta, e assim evitar o pico de calor.
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A ouvir:
"God's gonna cut you down"
Johny Cash
álbum: American V: A Hundred Highways