domingo, 13 de setembro de 2009

Desinspirado...

Não tenho tido pachorra para escrever nada de jeito, e por nenhuma razão em particular... acho que por cá o Verão morreu antes de acabar... Obrigado a todos os que me têm visto ser novo sendo velho :)

E sim o "poema" abaixo é uma treta... mas... para não dizerem que é por preguiça... tenho tentado mas... enfim:




Perdido em passos que já dei..


Sorrindo como já sorri

Não feliz, apenas habituado...


Tanta coisa em meu redor,

Novo, tudo novo, e bom

Mas...


Ah a brisa do mar traz-te...


E tu do novo és o mais velho,

E bom, mas...

Não ao meu redor.


Sorrio como já sorri,

é do hábito.


Perdido em palavras que temo

mesmo não as tendo ouvido..


Ainda, parece-me...








Sorri pequena... sorri, que se for sincero é bom.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

E porque a saga de Zakopane ainda não está perto do fim, deixo-vos com uma brincadeira de hoje:



"Bom dia" sorriram os seus olhos quando os meus se abriram.

"Oi pequena" a minha voz ensonada abria os panos daquele início de manhã, o Sol a bater no chão de madeira lá ao fundo deixando atrás de si um rasto de um branco amarelado intenso, luz, luz, luz, luz, luz... Imensa luz brilhante e nova que reflectia em todo o quarto até bater nos seus caracóis grandes fazendo-os quase louros.

Pisquei os olhos, espreguicei-me num bocejo para não a incomodar, e estiquei o meu corpo numa posição de prancha para não desprover os nossos corpos nus dos lençóis que os cobriam.

"Estás acordada há muito?"

"Não..."

"Estás a ver-me há muito?"

"Há algum tempo, sim."

"Observar-me então custa-te mais que estar acordada?" gracejei.

"É novo para mim, envolve esforço, envolve respeitar cada respiração tua, envolve não te ter a falar comigo, ter-te silencioso é quase uma nova experiência sabes?"

"Estás a queixar-te?"

"Não, nem me passaria pela cabeça tal... estou apenas a dizê-lo para que compreendas que tudo isto é novo para mim. Bom, sim, sem dúvida, mas novo ainda assim. Não sou tão experiente nestas coisas como tu..."

"E recomeças?Já te disse que isso são balelas, não sou experiente, não contigo, nunca contigo."

Os seus olhos reduziram-se a frestas felinas, o seu sorriso abriu-se numa boca já larga de lábios extremamente finos, delicados, bonitos. Apanhara-me na sua própria brincadeira, num jogo de que eu era mestre... "Psicologia invertida... que treta." ri-me.

Passei a minha mão por cima dos ombros dela como num abraço, e virei-me sobre ela, prendendo-a entre os meus joelhos libertei os meus braços e fiz-lhe cócegas na cinta, fazendo-a contorcer-se sob mim, mais e mais e mais, até culminarmos num beijo. Apaixonado, grande de tão pequeno, o mais próximo do eterno que alguma vez estive...

Levantei-me. "Onde vais?" "Volto já pequena." "Hmmmmmm" soltou ela num gemido lânguido e preguiçoso e querido que englobava toda aquela manhã numa única onomatopeia, com o braço puxou os lençóis para cima de si e deitou-me um "estás a olhar para onde parvo? Vê lá, vê.." que me deixou aparvalhado sem saber o que dizer. Ri-me, nessa tentativa de escapatória de quem não sabe mais o que dizer, e abri a porta de madeira escura na minha frente entrando na casa de banho.

A luz reflectia nos azulejos claros pela janela minúscula por cima da sanita, espreitei para os campos lá fora, onde o trigo ia já alto avisando que o Verão estava já quase a acabar.

Lavei a cara, passei as mãos pelo cabelo, ajeitei as boxers mal vestidas, lavei os dentes, e voltei para junto de ti: "Vamos dar uma volta? Aproveitar o Alentejo?". Ficaste calada... Abanei-te um pouco, gemeste outra vez e disseste-me "Volta para a cama, temos mais que tempo."

E eu acreditei em ti, e voltei, sempre quis ter tempo com alguém assim do lado, e nunca o tinha querido tanto como agora, como contigo. Enrolei-me nos lençóis, pousaste a cabeça no meu peito e adormeceste mais um pouco... A paz do teu rosto, entre olhos fechados e o rosto tapado pela tua juba enorme era tudo o que eu precisava, agradeci-te, e perdi-me no sonho contigo...


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A ouvir:


"Stay where you are"


Ambulance LTD


álbum: Ambulance LTD


link

Zakopane pt.5

Demoráramos no caminho já cerca de um quarto de hora, perdidos numa conversa composta por vocábulos lentos de duas línguas incompatíveis e imensa gesticulação, falámos de polkas e polskas, interesse meu nascido no Andanças, e mostrei-lhe o meu 1-2-3 na tentativa de aprovação por uma local. Sorriu e deu-me um braço e cantou em largos pulmões enquanto rodopiámos duas ou três vezes ao som da melhor tradição do sul da Polónia.
Os "ch's" e os "obra" e "ova" e cj" eram tão constantes que ao fim de algum tempo tudo o que a minha cabeça retinha era uma sessão contínua e quase inexpressiva deses sons. Ao subirmos o caminho rente à montanha Anja apercebeu-se da minha debilidade, embora eu me esforçasse ao máximo para a esconder e obrigou-me a parar para descansar, fingindo-se, ela própria, cansada tentando assim não me ferir o orgulho.
Disse-me "Halt" e ergueu o punho no gesto militar de paragem, e eu, na brincadeira, marchei até ela arrancando-lhe novamente as ruidosas gargalhadas que tanto me animavam.
Cá de cima via metade do caminho que havia feito desde hoje de manhã, elevei o polegar ao olho cobrindo-o e pensei "Tanto tempo para cobrires um polegar de terreno... a trigonometria é tramada, não é ti jagga?
Levantei-me de novo e fiz-lhe sinal para seguirmos, ela fez-me sinal para que me sentasse novamente, que precisava de mais descanso do que aquele. Acenei que não e dei um pulo, ao que ela acedeu ao meu pedido levantando-se e acelerando o passo o suficiente para me deixar para trás, como se me atirasse à cara que o orgulho tem limites.
A falta de oxigénio ali tão perto do Sol quente, o caminho de gravilha onde as minhas sapatilhas escorregavam de três em três passos, a minha falta de condição física e os excessos dos últimos dias, todos se uniam, personificados naquele granito cinzento à minha esquerda, que se erguia em direcção ao céu azul separando-me deste. do sítio onde estava, o topo da montanha parecia pender das poucas nuvens brancas que agora se viam, como se elas suportassem o peso do vale à nossa direita inteiramente, fazendo-os pairar sobre um qualquer mundo subterrâneo longe desta vista paradisíaca e verde polvilhada de flores e borboletas com os pássaros a entoarem permanentemente cantos em honra da beleza deste lugar.
De súbito, após uma curva na montanha, o caminho começou a descer imenso, em direcção ao que me parecia uma parede rochosa, mas como a minha guia permanecia segura, menos não podia fazer que segui-la. No fim da descida encontrei-me frente a frente com um desfiladeiro gigantesco, com paredes gigantes do mesmo granito que o topo da montanha que acompanháramos até agora. Pensei no quão pequenos ambos pareceríamos vistos lá de cima, de mais de 30 metros de altura, ao abandonar o verde colorido e a deixarmo-nos engolir pela boca das montanhas que nos desafiavam. Os nossos passos começaram a ecoar, e a dor nos meus pés aumentou consideravelmente, o cascalho crescia aqui de dimensão o que tornava bem mais difícil o apoio dos pés para alguém desabituado a estas caminhadas longas. Já Anja movia-se com uma agilidade quase felina como se fizesse aquele caminho diariamente, Ao ver a minha falta de jeito para me apoiar voltou atrás, e segredou-me algo que obviamente não entendi, percebi, no entanto pelo tom grave e pelo olhar dela que aquele lugar teria provavelmente uma qualquer mística especial, Levou o indicador aos lábios desgastados, num desnecessário sinal de silêncio e eu assenti educadamente.
40 passos à frente, quando o caminho sinuoso passou a impedir-me de ver a entrada do desfiladeiro, aproximou-se da parede direita, e ajoelhou-se, ao alcançá-la apercebi-me do pequeno altar ali presente e acompanhei-a bezendo-me frente a uma Maria vestida de branco, sinal do Sagrado naquele sítio nitidamente divino de tão paradisíaco. E ali, parado entendi que aquele sítio onde de repente me dirigi em oração àquela Santa (eu que de religioso não tenho nada) percebi, que mais do que procurar a fé, tinha sido encontrado por ela, não a Fé numa crença divina, mas a fé em mim mesmo, a fé de que qualquer que fosse o caminho que seguia, me encontraria a mim, ao encontrar verdadeiramente os outros.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Zakopane pt.4

Retomei a caminhada tentando motivar-me perdido em canções dos Kinks e ensava no quão fantásticos haviam sido os meus tempos com o Simon nas 3 semanas que ele passara comigo em Viena.
"Janado do caraças.", ria-me eu, recordando aqueles olhos minúsculos e o cabelo sempre colado à cabeça, a voz monótona sem nunca se exaltar nem sequer soltar uma gargalhada, rindo-se sempre baixinho e dizendo "E apesar de tudo invejo-vos latinos por conseguirem ganhar as pessoas tão facilmente.". Pessoalmente nunca percebera quem tinha ganho quem, se o Simon a mim, se eu a ele. Sei apenas que quando o conheci me sentira intimidado pela impessoalidade germânica dele, enquanto ele não gostava nada dos meus modos mais calorosos e abertos. Mas, de repente, sem nada o fazer prever, à bendita e clara luz dumas
Wieselburgers e dum dj set do senhor Peter Kruder entendemo-nos perfeitamente e ganháramos uma cumplicidade inacreditável.
Agora, no meio das florestas do Sul da Polónia, e longe do conforto industrial e negro do Flex, o realismo começava a entrar-me pelos poros abertos com o suor e a invadir-me o espírito, "O búlgaro tinha razão pá. O caraças do búlgaro tinha razão, estás aqui no meio do nada, sozinho à procura de algo quase impossível de encontrar", e, logo a seguir como que expelindo-o o cinzentismo: "Quase impossível!! QUASE! QUASE! QUASE! QUASE!" chegando ao ponto em que o pensamento passara da voz alta e daí a berro, acompanhado de um punho erguido estúpido isolado mas demonstrador do quão desesperado estava e do quanto precisava de me convencer de que não estava a andar para nada, por mais perdido que estivesse.
E eis que nesse momento em que estava sobre a corda bamba, num vai não vai de esperança, um milagre aconteceu, de repente um grito em polaco chegou-me aos ouvidos, corri para fora do arvoredo, feito tolo em direcção ao vale florido, onde seria mais fácil ver e ser visto. Com a pressa tropecei numa raíz, voando dois metros e espalhando-me ao comprido na relva, levantando em meu redor uma nuvem gigantesca de pólen que subiu no ar, cumprimentando-me como Deus criador das futuras flores deste vale, e pensei no quão aleatória era a criação. Como se o Acaso esperasse por mim para iniciar o processo de fecundação neste vale, levando agora o amarelo início de vida na brisa.
As gargalhadas gigantescas estalaram ruidosas mas doces e profundamente humanas, desviando-me a atenção da minha reflexão quiçá parva. Olhei-a enquanto me aproximava, devia ter uns 50/60 anos, envolta na sua saia verde escura e a camisola negra. grande, larga, cabelo contrastando entre o negro e o grisalho, olhos daquele azul inexpressivo de tão claro. Ao ver-me aproximar o riso diminuiu, mas o sorriso manteve-se, demonstrando serenidade, calma, e simpatia perante o meu aspecto deslavado e da minha cara agora amarela do pólen.
"Do you speak english?" sonhei eu...

"Niet" disse num sorriso enorme de quem me entendera como turista perdido, (e de resto o que era eu?).
"Français?Deutsch?Español?Português?"
"Niet, niet" e o sorriso cresceu, "Russky?"
"Niet" disse eu agora quase rindo.
Levantou oito dedos e disse algumas palavras perdidas novamente no meio das suas gargalhadas sonoras e boas, como quem diz: "8 línguas diferentes, 8 meu Deus, 8 línguas e não há forma de nos entendermos."
Acenei com a cabeça e encolhi os ombros. Ficámos parados a olhar um para o outro por uns segundos, até que me lembrei que tinha papel na mochila, saquei da caneta (nova gargalhada quando viu as garrafas, ao que lhe ofereci e me recusou com um sorriso sincero).
Escrevi "João" e apontei para mim, feito parvo arranhei o pouco alemão que sabia, como se este lhe fosse mais próximo... "Ich bin João."
"Ju-a-u?"
"Jo-ão, João" disse lentamente.
"Ju-a-um?" perguntou.
"Ja ja, und dir?" perguntei apontando para ela.
"Anja."
"Anja..." repeti, unindo as palmas e curvando-me numa vénia quase teatral.
Perguntou-me algo que não compreendi, mas que deduzi que fosse a minha origem:
"Portugal" disse com sotaque inglês, a sua cara foi de estranheza, "Por-tu-gal" repeti lembrando-me a diferença do "tch" e do "t".
"Ahh Portugal..." parou a pensar uns segundos "Simon? Simon freunde?"
"Ja Ja JA JA SIMON FREUNDE JA... UIIIIIIIIIIII" Saltei eu de alegria, "Simon sehr gut freunde uh ja, genau genau, um amigalhaço sim senhora" explodi eu abraçando-a, ao que ela respondia com mais gargalhadas, achando-me maluco. Recuei, vi-a sorrir-me e fazer-me sinal para que a seguisse, pedido a que atendi prontamente, correndo em torno dela e gritando "Obrigado An
ja, Obrigado é merci" e ria-me feito tolo, fazendo-a rir-se da minha tolice, percebendo a inocência nela contida...

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A ouvir:

"Alive"

Sa Ding Ding

álbum: Alive

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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Zakopane pt.3

No jogo do toca e foge entre o Sol e a àrvore que me servira de encosto durante a noite, a luz acabara por vencer o caminho até à minha cara, acordando-me para o mato que me rodeava.

Olhei para a clareira à minha frente procurando amoras ou mirtilos nos arbustos, e fui surpreendido por uma trepadeira que abraçava um carvalho, carregada de frutos vermelhos que pareciam maçãs em miniaturas. Observei as que estavam mais altas e que estavam debicadas pelos pássaros, decidindo-me a comê-las.

Tinham um sabor amargo, mas a consistência era semelhante a uma pera, embora menos sumarenta.

Recolhi algumas para um saco de papel, abri a pasta e troquei-as pelo telemóvel que me apontou as 11 horas seguidas que dormira.

"E cansado estava" disse em voz alta "Vamos é beber uma jeca para aliviar a dor de cabeça matinal." ganhara este hábito de falar sozinho em voz alta para ter a certeza dos sons do m

eu português. Como que para me convencer que o meu país estava ali dentro do meu cérebro e que não me abandonara. Tentava assim evitar que os meus pensamentos fugissem para o inglês, ou para o francês mal amanhado, ou ainda para o meu portuñol (versão pr´pria dum galego que não conhecia tão bem como isso), e, assim, manter o meu pedacinho rectangular junto ao mar na memória.

Caminhei os 15 metros que me separavam do rio para redescobrir as garrafas que lá havia posto no dia anterior, geladas pela àgua que descongelava das montanhas ali perto, ao alcance dos meus olhos. Dei um mergulho rápido, sentei-me na margem, tirei o isqueiro do bolso das minhas calças estendidas na relva da margem, abri a Lech e saboreei cada golo como se fosse ambrosia divina a escorrer-me pelas goelas.

Há cerca de três dias que não comia uma refeição digna do nome e, algo me dizia que não o faria tão cedo, mas sentira-me bem até há noite anterior, de embriaguez em embriaguez atirara no meu pensamento, a fome que sentia para a gula, mas neste momento em que essa sensação passara, o meu estômago aproveitava para apregoar as suas queixas à minha cabeça, mas tirando os projectos de maçã, "E mal os posso considerar mais que um petisco", não tinha nada por perto, pelo que tomara a decisão de beber duas cervejas de rajada para enganar o organismo. Abri a segunda, e ao fim desse segundo meio litro em jejum, já me sentia trôpego o suficiente para me perder a pensar noutros assuntos. Arrumei as minhas coisas, voltei ao rio, recolhi as garrafas cheias e vazias pondo-as na minha mala de tiracolo, e segui em direcção à nascentedo rio, seguindo também o pensamento de

que subindo a montanha poderia ver toda a região à minha volta.

Fresco do banho e com as pernas descansadas da noite, avançava a um bom ritmo por entre as árvores, sempre paralelo ao rio, e mantive o ritmo durante um bom par de horas. talvez mais... Começara, no entanto a suar, o que significava que o álcool saía do meu organismo na mesma proporção em que as dores de estômago e de cabeça voltavam. Ia bebendo água do rio para me ir enchendo e ludibriar a fome que sentia. Tentava guardar o álcool o mais possível por não saber quanto tempo passaria sem ver gente.

De súbito, ao virar do rio, o meu maior medo concretizara-se. À minha frente, o arvoredo acabava, e, a paisagem abria-se numa planície verdejante, polvilhada pelo amarelo e rosa das flores que saltavam por entre a relva. Por mais bonita que fosse esta visão "E é-o de facto" significava também o fim da sombra, e isso assustara-me. Tentei seguir o rio com os olhos, para ver se haveria alguma floresta por perto, mas apenas um ou outro carvalho isolado me apareciam, nada que me protegesse dos mais de 30 graus do Sol polaco.

Voltar para trás também não era uma opção muito atraente, ao todo devia já ter percorrido umas 9/10 horas a pé desde o ponto onde o búlgaro me deixara. fosse como fosse também não sabia a partir daí como chegar à localidade mais próxima, pelo que decidi afastar-me do rio, e tentar subir a montanha por entre a floresta, e assim evitar o pico de calor.


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A ouvir:


"God's gonna cut you down"


Johny Cash


álbum: American V: A Hundred Highways


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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Zakopane pt.2

As silvas roçavam-me as pernas, mas eu imaginava-me no meu God mode, invulnerável, insensível, dominador. Alguns pardais cantavam como que rindo-se da minha clara inaptidão para homem do mato. Tropeçava a cada 3 passos, parava para cheirar arbustos e árvores, e o meu aspecto devia ser, já de si, andrajoso o suficiente para fazer rir-se qualquer animal que me pusesse a vista em cima.

Entre duas árvores vi a promessa cristalina cumprir-se, saltei o monte de terra e aterrei "splash" de sapatilhas na água com a inocência de "Gigantic" dos Pixies a ecoar-me na imaginação, num momento puramente adolescente e feliz, "Hey pal Hey pal Hey pal let's have a ball". Dirigi-me ao outro lado da margem e pousei a mochila na relva seca. Tirei as 3 latas de cerveja e a garrafa de vodka que ainda estava por abrir, prenda de uma qualquer miúda da noite de ontem, encantada com o meu cabelo escuro e paleio estragado de pseudo-intelectual enquanto eu lhe dizia em voz alta e confiante:

"Mas estás a entender mal, poéticos são os teus olhos, e não é, repara, não é que eu me esteja a fazer a ti, não, não, NÃO!!" E virando-me para o lado cantarolava para o polaco que estava à minha beira "Sorry Sir it couldn't be further grom my mind" e ria-me feito perdido até perceber que ela ainda aguardava a continuação do diálogo e então olhando-lhe nos olhos retomava como se a interrupção fosse a coisa mais natural do mundo: "Tenho alguém que não o Lou Reed na cabeça" gracejava " e nunca poderíamos ter algo que não apenas físico, nós os dois... És demasiado perfeita nos meus cânones. Os teus olhos azuis claros, frios e gelados são quase locus horrendus na minha óptica, pela antecipação da dor que sentiria ao partir-te o coração. Além disso o teu sotaque polaco, rústico, encantador, de quem tem as dores recentes dum país tão sofrido, tudo isso sobressai na tua voz rouca, no teu sotaque pausado povoado por chs em vez de ss's, nos teus olhos desse azul quase morto, desprovido de emoção, no teu cabelo tão louro, na tua pele leitosa de tão branca, nos teus lábios tão rosados, toda a tua etnia e legado cultural e biológico é revelada em todas estas características, e tal prova-me que a tua vida é bem mais próxima das tuas raízes, e, só por aí tão mais artística, porque o que são afinal a poesia e a arte senão formas de nos manter ligados a essas mesmas raízes? És tu a artista aqui, não eu, tu expressas-te em cada expiração, em cada olhar, em cada gesto... E eu por muito que o quisesse fazer nunca o conseguiria fazer. Talvez a polka que dancei contigo tenha sido o mais próximo que estive de ser o artista que tu és, e agradeço-te por tal."

E ela rira-se fazendo-me sentir bêbado, mas agora sozinho, percebia claramente o fio condutor (se bem que caótico) do meu prório pensamento, e, o quão lógico era tudo o que dissera.

Mergulhei as latas e a garrafa à sombra, na água transparente e gélida para arrefecerem, tirei e atirei a roupa para cima da mochila e deitei-me no meio do rio, tomando o meu primeiro banho em dois dias,

enquanto imaginava destinos possíveis se me deixasse boiar assim nu na direcção da corrente fria. Imaginei um urso observando-me atrás das árvores, junto à margem à sombra dos arbustos polvilhad

os de coloridas bagas, e gritei-lhe:

"Anda grande mamífero gigantesco, ser impotente de pêlo escuro e de pose intimidante, não tenhas medo de mim, aproxima-te, anda partilhar este leito de água fresca com que a Natureza nos brinda a ambos, a ti Rei desta floresta, e, a mim, Deus da minha vida. Anda ser-te perto de mim para que ambos possamos tirar algo deste momento" Nada se mexeu, e, um olhar mais atento revelou-me a substituição do pêlo imaginado por uma ilusão das sombras. Ri-me do quão ridículo acabara de ser, e senti-me absurdamente feliz.. Os acordes de Sofa Surfers povoavam-me os ouvidos... "Can I get a witness..."


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A ouvir:

"I'm waiting for the man"

The Velvet Underground

The Velvet Underground and Nico





"Gigantic"


Pixies


álbum: Surfer Rosa


link






Can I get a witness


Sofa Surfers


álbum: See the light


link (faço aqui uma chamada de atenção para o seguinte, este videoclip é gravado no Loos American Bar, sítio onde quando estava a viver em Viena era lugar de muita escrita também... um sitio fantástico, a que toda a gente que passe pela cidade devia dedicar uns minutitos se possível. E já agora que estou numa de guia turístico é obrigatório irem ao Flex :p)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Zakopane pt.1

Início da transcrição do que no meu bloco de notas se foi criando por terras polacas, tentarei publicar uma nova parte todos os dias, ou de dois em dois dias no máximo, espero que gostem... como é hábito tentarei associar uma música a cada parte da história publicada também, embora provavelmente nem sempre me será possível lembrar da música exacta que estava a ouvir quando escrevi o excerto em causa, dado que desta vez fui deixando o leitor de mp3 rodando... ainda assim, aqui fica:

Zakopane

"Here?" indagou surpreendido no seu inglês seguro, mas fortemente sotaqueado.

"Yeah, exactly here" respondi eu.

"But this is nowhere, the next village is at least 20 Km away." continuou ele.

Thank you, but the landscape is calling me. There's something waiting for me around here, I'm sure of it..."

"You're nuts, there's nothing here except for tre

es and mountains..."

"I ain't nuts, really, I'm sure of this, Simon lives here."

"How do you know?How the hell would you know? You just told me you were never there, you don't even have an address, you don't know the landscape, you don't know the language, you've to be completely stupid to want to go out here man..."

"I just know ok? I just know... Thank you for the ride, thank you for the company, but the landscape's calling me and I've to go."

Abri a porta e saí, o búlgaro saiu irritado, e de um gesto brusco abriu a mala, tirei a mochila, agradeci mais uma vez.

"Are you sure you want to stay here, in the middle of the wild, with no way of contacting anyone else, risking to get lost?"

"Yes man... No problem, really, I'll manage, thank you..."

"Ok bye... good luck you nuts portuguese."

"Bye."


Meteu-se no Corsa vermelho, coberto de pó, derrapou por meio segundo na gravilha e arrancou em direcção ao seu próximo nada apitando duas vezes. Acenei-lhe, sustive a respiração e virei-me para a floresta imensa nas minhas costas. Quando a poeira assentou, tentei redescobrir com o olhar a minha boleia até aqui, mas tinha já virado na estrada e embora ouvi-se o som do carro a ecoar pelo vale já não o via, tapado pelas árvores gigantescas que ladeavam a estrada escondendo verdadeiros mundos para longe do caminho certo da estrada...

Localização desconhecida, tempo incertp, algures entres a flores coloridas nos arbustos do fim de Primavera e os primeiros frutos, ainda verdes e minúsculos a penderem nas árvores, chamando o Verão.

Ao longe e no seu azul distanciado, as montanhas cercavam-me a mim e à paisagem, e, revelavam-me o porquê de não existir por cá nem uma ponta de vento pronto para afastar o calor exagerado que o Sol causava. A estrada cheia de poeira à minha frente iludia-me com inúmeras poças imaginárias e, a sua promes

sa vã de chuva para arrefecer o clima, mas, olhando para o céu nem uma nuvem me brindava... nem uma. A completa inexistência do cinzento como que a negar-me o conforto de me sentir em casa no meio da chuva.

O búlgaro que minutos antes me dera boleia achara-me maluco. "O raio do português, no meio do grande nada verde polaco, à procura de um amigo que nã

o vê há anos, sem saber a morada, sem conhecer a língua, sabendo que é algures nas montanhas de Zakopane e que tem um rio por perto? Caralho para o hippie ou o caraças..."

Eu lia-lhe as palavras nos olhos e a única coisa que me apetecia era berrar-lhe "HIPPIE O TANAS PÁ. HIPPIE O TANAS! BEATNICK E DOS BONS PORRA." Mas o homem estava já a ser simpático que chegasse em fazer um desvio de mais de 30 Km em troca duma Zwyec, e, como beatnick que me sabia (sei?), gostava destes bancos cinzentos e estofados onde o meu rabo descansava tal e qual rei do meu corpo, fazendo algo que o cérebro, dividido entre bebedeiras absurdamente agressivas, dormidas de duas horas, diálogos sobre o futuro da Europa e do Mundo e dos diferentes eus que era a cada noite (estudante, viajante, trabalhador, artista, boémio, o que quer que entretesse os meus companheiros de cerveja e vodka) não poderia nem que quisesse fazer.

Ouvia água não muito longe, cantando-me tal qual sereia aos ouvidos, e decidi então correr ao seu encontro...





(continua amanhããããã)



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A ouvir:


" Hear My Train A Comin' "


Jimy Hendrix


àlbum: Radio One


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