domingo, 26 de julho de 2009

Big Sur

A Nortada levantou o nevoeiro da manhã e atirou-me areia à cara... Olho para as árvores que sorriem nas montanhas e penso que o meu tempo aqui acabou...

Mando dum trago o pouco whiskey que ainda resta na garrafa do ti Jack e atiro-a contra uma rocha estilhaçando-a em direcção à areia... Pego no leitor de mp3 e o shuffle faz a manhã brilhar mais:


"I dig my toes into the sand

The ocean looks like a thousand diamonds

strewn across a blue blanket"


Olho para o grande azul à minha frente... Isto é o mais próximo do eterno que alguma vez tive.

Espero que a música acabe, tiro a camisa de flanela e as calças, e mergulho envolvendo-me o mais possível no Pacífico, sentindo as suas águas salgarem-me a pele... Dou meia dúzia de braçadas e perco-me a pensar:


"I wish you were here"


Passo a toalha pelo cabelo, pego no telemóvel e ligo-te. Já não falava contigo há dias mas a tua voz ajuda-me a pôr tudo em perspectiva, sabes-me bem, mesmo longe.


"Oi..."

"Olá!" E mesmo tendo em conta que estamos separados por um continente inteiro e pelo Atlântico eu juro-te que vejo o teu sorriso, e que o sinto, igualzinho ao meu... "Onde estás?"

"Big Sur"

"Como o Kerouac?"

"Como o Kerouac."

"Sabes que sinto o cheiro a álcool daqui?" e dás uma gargalhada.

"Sério?Não é por estar bêbedo.."

"Eu sei... Como vai o livro?"

"Melhor, mais um ou dois capítulos e acabo-o..."

"Estou com saudades..."

"Eu também, hoje já vou para o México, para a semana chego e vais finalmente ler o livro."

"Saudades tuas, não de ler o que escreves... Também de ler o que escreves, mas... Tu sabes o que quero dizer...Vais visitar o Virgil?"

"Não, vou tentar não parar em L.A. para poder jantar em S. Diego, mas o Phill vai ter comigo a Tijuana."

"Dá-lhe um beijinho meu..."

"Dou sim..."


E ficamos durante uns segundos sem dizer nada, eu a tentar ouvir a tua respiração por cima do vento, e tu a pensar no que quer que seja...

"Eu..."

"Não digas pequena..."

"Há coisa que não devem ser ditas, mas vividas ao extremo? Como na tua música não é?"

"Sim...Isso mesmo.Vá pequena, tenho de ir andando, ainda vou guiar 9 horas hoje, vais jantar com elas?"

"Sim, vou comer uma francesinha por ti.Beijinhos"

"Beijão"


Desligo, e tu não vês, mas as saudades carregam-me os olhos neste momento, a felicidade de te saber, com as duas covas que fazes no lado direito do rosto quando sorris, lá no velho mundo a ser-me presente. Volto a vestir-me atiro o saco cama para dentro da mala do carro, olho para o mapa durante uns minutos, ponho o mp3 no carro puxo a música para trás:


"I lean against the wind

Pretending I'm weightless

And in this moment I'm happy, happy...


I wish you were here"


E eis que parto em direcção à auto-estrada, a Tijuana, ao México, aos dois capítulos por escrever, e, consequentemente a ti...



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A ouvir:


Wish you were here


Incubus


álbum: morning view


link



sábado, 25 de julho de 2009

Paradise

A continuação da história apresentada há uns dias:


“What a beautifull world so fragile and

fertile, pain filled the void when boy met girl.”

- “Paradise” Eydea


Eles


Os seus mundos colidiram após vários

encontros fugazes... Ele na sua vontade de

ser mais sendo-se menos, ela confiando na

aparente bondade dos olhos dele... Ambos

desajeitados tratavam-se na palma das

mãos, e de palma para palma transferiam

tanto, como quando se olhavam nos

olhos, ele sentia-se como se conseguisse

ser mais nela. Finalmente alguém grande,

finalmente alguém além de si... A cor dela

pintava-se com força por dentro dele em

pinceladas espessas como num quadro de

Van Gogh. Tão antagónicos, tão receosos,

e apesar disso tão felizes naquele fim de

ano... Ahhh aquele nervoso miudinho do

início de relação, aquele cheirinho entre o

medo da entrega e a vontade de se serem,

a inocência da ilusão, a ténue linha entre a

não pressão e a vontade de estarem

juntos...

Nasciam-se todas as noites naquele riso

cúmplice de quem diz, “eu sei-te aí, e sei

que queres aqui estar”. Viviam-se num

constante agradecimento, gostavam-se

longe de dependências e tragédias

hiperbolizadas como todos os casais se

vivem nos primeiros meses.

Sem medo de se viverem, numa

experiência que fazia ambos sorrir mais e

sentirem-se melhor.


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A ouvir:


"Paradise"


Eydea & Abilities


álbum: E&A


link






quarta-feira, 22 de julho de 2009

100%

O rádio do meu carro anda sem código há sensivelmente 7 meses.


A primeira pergunta que me fazem quando entram no meu carro é sempre "Como é que alguém que adora tanto música consegue viver sem o rádio a funcionar?". Duas explicações sumárias, a música está na minha cabeça, não preciso de um rádio para a ouvir, e, além disso sou muito de ondas quero sempre ouvir aquela música em particular e para isso ando sempre com a mão no leitor de mp3, e a atenção também. Poupo em acidentes, ganho em concentração e, obrigo-me a um exercício mental que me leva a pensar muito mais a música, a ganhar noção do som de cada instrumento, de cada sílaba, de cada cadência, cada ritmo...


Estranhamente passei a viver a música muito mais desde que fiquei sem rádio.... Não que não a vivesse antes, mas... é uma experienciação diferente que me leva a tomar o processo criativo muito mais em conta.


Reparei também que desde que perdi o rádio voltei ao punk e ao rock alternativo, passo muito tempo a ouvir Sonic Youth, e Velvet Underground e Crass e Ramones e Mars Volta e outros que tal. O barulho vive-me no cérebro de uma forma ridiculamente cómoda.


Na verdade estou a mentir, por muito interessante que possa ser imaginar a música em vez de a ouvir, poderia muito bem arranjar o código e manter o rádio desligado... Na verdade sou preguiçoso, e, essencialmente por isso não tratei ainda do assunto.


Além disso, o rádio no carro permitir-me-ia voltar a ouvir música que em casa não tenho por norma ouvir, e sinceramente o meu mundo andou muito escuro para me atrever a escutar Hendrix ou Zeppelin, quanto mais de la soul ou tribe called quest.


Estou bastante passivo quanto à situação do meu rádio, o que é também um pouco um reflexo da minha atitude quanto à minha vida neste momento... Não vou mais esforçar-me para que as coisas aconteçam,.. Para quê? Acaba tudo sempre a não depender de mim, porque raio é que hei-de forçar semelhante afronta à minha condição de Deus do meu próprio

mundo?


O meu carro, o "ninho de água" perto de S. Bento e o antigo farol da Aguda às 2 da manhã destas noites quentes de Verão, são efectivamente o único espaço neste mundo que considero efectivamente meu... E nestes três pontos eu sou rei e senhor, e quero sentir os efeitos da minha vontade, ainda que a minha vontade seja apenas a de manter o aspecto apático de tudo.


Sou Deus de mim, e Deus das minhas pequenas coisas...


Tão cedo não voltarei a beijar ninguém no meu carro enquanto ouço Sonic Youth, muito menos Moldy Peaches no rádio...


E de certo modo fico até contente por isso...



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A ouvir:


"100%"


Sonic Youth


Álbum: Dirty


link (para 100% e Empty Page ao vivo)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Silêncio

E porque no início tudo isto era poético, acho que faz todo o sentido postar um dos meus primeiros poemas a sério...

Silêncio

Usas demasiado as palavras
E elas perdem o seu sentido
Num sentido irreversivel


Quero expressar
Talvez não uma imagem
Porventura uma ideia
Um som... sim... um som.


Não são os sons
Bem mais poéticos?
Mais verdadeiros?
Mais genuinos?
À falta de paciência
No excesso de desilusão
Calo-me, nao ouço e remeto-me ao silêncio.


Porque as palavras são demasiado usadas
Estao gastas de tanto uso
Ja não se ouvem quando as dizes
Ja não são palavras...


São para ti desculpa...


São para mim dor...


Antes fossem silêncio.


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A ouvir:

Accordion

Madvillain

Álbum: Madvillainy

vídeo: link

Ela e Ele

Este é o início de uma história maior, projecto que vem sido desenvolvido desde Fevereiro deste ano, e entretanto por vicissitudes do processo criativo ficou em águas de bacalhau... Ponho aqui as primeiras linhas como aperitivo, e como forma de me obrigar a trabalhar quiçá um pouco mais nisto. Espero que gostem.



Ela


O seu sorriso é paz desde o início, desde que os seus lábios começam a crescer, e, o seu rosto escuro e bondoso, com um calor imenso e gigante aquece todos os que a rodeiam.

Vê-la a passar é estranhamente reconfortante, como se à sua passagem fantasmas e demónios corressem para se esconder, sob pena de perderem o seu negro para a cor que explode dela. Até a sua expressividade tem a inocência de uma criança, embora os seus olhos revelem alguma saudade disso mesmo.

Pumbabatutum, é desajeitada e feliz até quando não o é, é o espelho dos dias quentes de Verão, e as musiquinhas psicadélicas de MGMT, e cor de terra, e cães, grandes ou pequenos correndo e latindo numa praia fugindo das ondas que lhes molham as patas e voltando à areia molhada para a cheirarem, é um musical cómico que nos põe um sorriso gigante e nos faz sentir bem.

É também no entanto um pedaço de Jackson Pollock que não conseguimos bem perceber, definitivamente bela, mas duma beleza tão complexa que nos espanta, quiçá assusta.

Menina de vermelho... Quente e fantástica como poucos.

A Menina de vermelho cheira a África...


Ele


Isolado na sua cela bem lá no cimo da torre, ele é-se só. Tem liberdade para sair e entrar quando quiser, mas raramente sai com medo do que o espera por fora. Perdido no seu vazio ele não se achava preenchido nem realizado mas preferia-se

assim para já.

Filho da cidade, prático, algo cínico, com cheiro a cigarro e olhos cinzentos esverdeados que lhe definiam o espírito da forma mais exacta existente, alguém que apesar de quadrado gostaria de ter a coragem de fugir para esse mundinho de cor que alguns à sua volta evidenciavam...

Sabia-se desajeitado pelo que pouco falava. Sentia-se confortável naquelas noites de nevoeiro intenso, ou nas manhãs frias e limpas de Fevereiro. Acima de tudo sente-se confortável sozinho a pensar que preferia estar com alguém. Tudo o que envolva mais do que si próprio tira-o da sua zona de conforto.

É os c’s mudos das palavras a serem pronunciados, e a confusão e o caos do saxofone de Coltrane na fase final da sua vida, com cor por dentro mas com a morte a medi-lo de alto a baixo, durante toda uma vida...

Procura-se nos outros, quando os outros são o que mais evita...

O menino cinzento transpira Europa.



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A ouvir:

"Trans Fatty Acid"

Kruder and Dorfmeister

Álbum: The K&D Sessions

sexta-feira, 17 de julho de 2009

la vie en rose?

A madame Piaf:




Envolta no seu ar tímido deu dois passos em direcção ao foco, dois passos minúsculos deslumbrada pelo medo que a deixaram descentrada no foco e longe do microfone...

Lançou o seu sorriso nervoso e soluçado na direcção do público e disse "Bonne nuit", um aplauso estrondoso rompeu a solenidade daqueles momentos que o antecederam, ela olhou quase espantada em frente na sala escura, para o público não iluminado como se se visse sozinha numa sala tão imensa, e, como se as palmas fossem apenas fruto da sua imaginação.


Um, dois, três, quatro e...


Pintou a sala com a sua voz, criava o público a cada sílaba, deixando o medo para trás, e ganhando aquele espaço e a sua cor. Cantava não pela aprovação, mas sim por necessidade.

Começou a ver as caras das pessoas nas filas do fundo. E a cada cara que via soltava mais de si e fundia-se cada vez mais com o que cantava. Olhou para o guitarrista que tocava de olhos fechados, ele sentia-a tão bem, completava as suas frases não só com mestria mas como se seguisse nota após nota o pensamento dela.


Sublime...


E no camarim ficaram as brigas, e os gritos, e os maus ensaios, e a vida fora da música.

E pelo ar espalhara-se o nervosismo até se dissipar totalmente dividido por todo o público que ela própria criara.

Era ela canção... Definitivamente canção. Apesar das costas arqueadas, do ar velho, das olheiras, das cirroses, da pancada, do reumatismo, e da dor, o que ela se tornara valia a pena, e por isso mesmo cantava:


"Non, Rien De Rien..."



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A ouvir:


"La vie en rose"


Edith Piaf


Álbum: La vie en rose


link

terça-feira, 14 de julho de 2009

Viagens

3 da manhã.


3 da manhã!?


3 da manhã...


E no cheiro do mar que me invade o quarto janela adentro reside uma capacidade imensa de uma e outra vez me fazer sentir a melancolia destas noites de Verão, e penso que o dia de hoje apesar de tudo foi bom...


Marrocos...


Marrocos...


Marrocos...


Ainda estou a imaginar a desilusão na cara deles quando o militar olhou para aquele passaporte e rosnou as fatídicas palavras


"Não é válido..."


E ao olhar para a cara de desapontamento deles olhei à volta, naquele hangar onde o asfalto quente me fazia semicerrar os olhos estava o avião que nos deveria transportar até Ksar el Kebir, impondo o seu verde majestoso como se troçasse de nós:


"Aventura hein? Mandarem-se à maluca? Para a próxima metam realidade nisso que já não deixam os passaportes caducarem"


Sorri-lhe de volta o mais cínico que podia. Olhei em volta e a rapariga olhou para mim com uma vergonha enorme, como quem deixa um quase desconhecido mal depois deste confiar nele... O meu sorriso passou de cínico a divertido e tentei brincar com a situação:


"Para a semana à mesma hora?"


Só ela se riu...


...

...


"E ainda vais demorar 3 horas a chegar lá acima... desculpa"

"Tenho o moleskine comigo, trago sempre o moleskine comigo..."

"Mas tu não gostas de escrever no moleskine. Eu sei disso, vês?"


Esteve comigo duas vezes na vida... Uma na fila de espera por um avião rumo à majestosa Viena de Áustria, que era para ela e para amiga naquela noite um ponto de passagem, e a outra no dia a seguir (ou dois dias depois?) quando ainda ressacado e depois de a ter feito esperar-me uns 25 minutos por causa da viagem relâmpago (tentei eu que fosse... ) de Nussdorferstrasse até Stephensplatz dei o meu melhor como guia turístico improvisado para lhes mostrar os monumentos da cidade em 2 ou 3 horas.

E, apesar dessas "apenas" duas vezes, o milagre da comunicação informática que mantivéramos depois fazia-a saber bem mais de mim do que muita gente com quem partilho o dia a dia...


"Mas tu não gostas de escrever no moleskine. Eu sei disso, vês?"


E tem razão...sempre preferi folhas soltas, um caderno envolve demasiada responsabilidade, como se cada frase tivesse que sair perfeita, como se no caso de algum dia o perder, alguém que nele tropece ao ler uma página tenha de se sentir imediatamente compelido a ler tudo de uma vez...

Tenho imensos moleskines, mas ainda estou longe de ser suficientemente bom para escrever neles...


...

...


E não viajei para Marrocos... Como se a premonição de meses antes estivesse certa apesar de me ter esforçado ao máximo para que errasse... A verdade é que hoje quando saí de casa de manhã sabia que não iria embarcar naquele avião... Algo dentro de mim me dizia que não era bem possível, que por qualquer arte mágica o meu sonho de voltar a pisar África fosse acabar numa viagem a Lisboa e de volta. Nunca me passara pela cabeça que fosse por causa de um maldito passaporte fora do prazo... Estragado como um iogurte, como se a identidade que apregoava nas suas páginas deixasse de fazer sentido para a burocracia, como se de repente o ser que representava perdesse o significado...


Perdi-me a pensar em metáforas imensas entre aquele passaporte que podia ter significado tanto para nós os cinco (dos quais três nem conhecia), e o meu moleskine em branco no meu bolso...


"Quando chegar a casa escrevo isto... Este moleskine fica guardado para quando for a Marrocos. Vingá-lo-ei por esta viagem de hoje." ri-me para mim.


...

...


3 da manhã.


3 da manhã?!


3 da manhã...


E a viagem a Marrocos era no fundo só uma forma de me dizer que podia viver os NOSSOS sonhos de uma forma só MINHA. O cheiro do mar que me invade o quarto janela adentro traz-me recordações daquela noite em que agarradinho a ti encostado a uma rocha vira o Sol a nascer nas nossas costas a reflectir-se no mar, uma luzinha nova por cada onda, uma luz maior a cada segundo...


Irónico não?


"Como raios é que era a metáfora do moleskine e do passaporte? Raios... não me lembro... odeio moleskines."

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A ouvir:


qualquer cover dos Crass por Jeffrey Lewis


(Estou muito preguiçoso para perceber qual é que me fez começar a escrever este texto, perdoem-me :) )


Deixo-vos uns links para vídeos das covers do homem... Não deixem de as ouvir... são fenomenais...


End Result (vídeo)

Systematick Death (vídeo)

I ain't thick (ao vivo)

Punk is dead (ao vivo com filler no início se tiverem pressa avancem até ao minuto e dez)